Em artigo publicado em VEJA desta semana, o economista Gustavo Ioschpe diz que melhorar o sistema de ensino precisa ser parte de um projeto nacional
Fui fazer faculdade nos
Estados Unidos em 1995 e depois voltei para mais dois anos de mestrado lá. Saí
mais otimista em relação ao Brasil do que quando cheguei. Até aquela época, o
contato com os EUA se resumia a férias, filmes e encomendas trazidas de viagem.
Sob esse prisma, o país parecia uma Terra Prometida, onde tudo era bom e barato
e as pessoas, ricas e civilizadas. Se era assim na média, imaginei que depararia
com verdadeiros super-homens nas universidades Ivy League para as quais me
dirigia. Felizmente, eu me decepcionei. Meus colegas americanos eram muito mais
ignorantes e superficiais do que eu imaginara. E, fora as questões intelectuais,
me chamou a atenção seu desajuste emocional. Parecia que todo mundo estava ou
brigado com os pais, ou tomando antidepressivos ou indo a festas para beber até
cair. Muitas pessoas se encaixavam nas três categorias. Se esse pessoal
conseguiu construir a potência hegemônica do planeta, pensei eu, nós também
podemos. Yes, we can!
A volta ao Brasil depois de
oito anos foi, porém, surpreendente. Porque era (e segue sendo) claro que o país
se divide em dois grupos. Um é cosmopolita, aguerrido, preparado e ambicioso.
Gente que tem fome, que quer competir com o que há de melhor no mundo. Ayrton
Senna. O outro é provinciano, malemolente, com baixa instrução, acomodado. Um
pessoal que está satisfeito com o que a vida lhe deu. Macunaíma. Impossível
quantificar construtos tão subjetivos, mas diria sem medo de errar que o segundo
grupo é muito mais numeroso do que o primeiro.
Prova indireta disso é que os
slogans dos presidentes democraticamente eleitos nas últimas décadas - portanto,
afinados com a mentalidade coletiva - pertencem quase todos ao segundo grupo.
Sarney: “Tudo pelo social”. Itamar: “Brasil, união de todos”. Lula I: “O melhor
do Brasil é o brasileiro”. Lula II: “Brasil, país de todos”. Dilma: “País rico é
país sem pobreza”. Todos esses olham para dentro e para trás: o foco é sanar
desigualdades, incluir, corrigir os erros do passado, glorificar o que temos.
Com exceção do “Avança, Brasil” de FHC, ninguém faz menção ao mundo exterior ou
ao futuro, ninguém almeja tornar o Brasil aquilo que, até por suas dimensões e
riquezas naturais, ele deveria naturalmente querer ser: uma potência
mundial.
Compreender e explicar essa
acomodação está além deste espaço e deste colunista, mas as consequências desse
espírito são claras: ficamos muito abaixo do que poderíamos ser. Tanto a
literatura acadêmica (disponível em twitter.com/gioschpe) quanto a minha
experiência de vida têm me mostrado que a gana individual - perseverança,
resiliência, ambição - é fator fundamental no sucesso de uma pessoa, aliada à
qualidade de sua formação. Não faltam inventividade e persistência ao
brasileiro: o problema é que os sonhos de muitos compatriotas são bem mais
acanhados do que poderiam ser. Alguém já disse que o homem prudente é como o bom
arqueiro: mira sempre um pouco acima do alvo. O Brasil já mira abaixo do que
deveria, e portanto acaba alcançando ainda menos do que ambiciona.
Em nenhum lugar esse rasgo da
nossa psique está mais aparente e imbricado com uma complexa relação de
causalidade do que em nosso sistema educacional. Se a nossa pouca ambição já vem
de família, certamente ela é muito reforçada em nossas escolas. Em um perfil do
professorado brasileiro traçado pela Unesco e pelo MEC, 75% dos professores
declararam preferir a igualdade à liberdade. O objetivo da nossa escola é
homogeneizar, não desenvolver talentos. Um levantamento de 2007 do Inep, o órgão
de pesquisas do MEC, identificou 2 553 alunos superdotados na educação
brasileira. Para identificar menos de 3 000 superdotados em uma rede de mais de
50 milhões de alunos é preciso um esforço consciente de cegueira. Eis aí uma
diferença básica entre o que vivi em escolas brasileiras e universidades
americanas: aqui, o bacana era o cara que não estudava, baladeiro, safo. O aluno
aplicado é “nerd”, otário. Lá, assim como em outros sistemas educacionais de
ponta, valorizado é o aluno que estuda muito e tira ótimas notas. Nos EUA, os
melhores alunos entram para honors lists; na Alemanha, há sistemas educacionais
diferentes para aqueles com ambições acadêmicas mais altas; na China, os alunos
são ranqueados e precisam de boas notas para adentrar as melhores escolas e,
depois, as universidades. Aqui, o histórico escolar da pessoa não importa. O
jogo é zerado no momento da entrada para a universidade, decidido por meio de um
único teste (vestibular ou Enem). No Brasil, há uma estranha percepção de que
recompensar os melhores e mais aplicados seria romper o éthos republicano.
Nossos professores descreem de seus pupilos: só 7% deles acreditam que quase
todos os seus alunos chegarão à universidade, segundo questionário da Prova
Brasil 2009. Nosso desastre educacional também desestimula ambições ao tirar do
brasileiro o preparo intelectual que é o pré-requisito para voos mais altos.
Pesquisa do Inaf mostra que 74% dos adultos brasileiros não são plenamente
alfabetizados. Com esse despreparo, sonhar muito alto pode ser sinal de doença
psiquiátrica.
A má educação causa a falta de
ambição e é também causada por ela. Nos países que deram grandes saltos, a
educação não foi percebida como um fim, mas como parte de um projeto nacional.
China do século XXI, Coreia da década de 70, Estados Unidos dos anos 30, Japão
do pós-guerra: nesses e em outros casos, os países perseguiam um sonho de
grandeza. A educação não era o ponto de chegada, mas parte da ponte até o futuro
glorioso. Parte do nosso problema é que, ao não termos um projeto nacional
inspirador, a educação deixou de ser uma questão dos brasileiros e se tornou
propriedade dos professores e funcionários. Alguns deles têm espírito público e
generosidade e fazem o melhor que podem para os seus alunos e, consequentemente,
o país. Mas a maioria acaba se acomodando em um sistema que não incentiva o
mérito, nem pune o demérito; as únicas causas que defendem são as suas
próprias.
Mas será que precisamos ser
mais ambiciosos? O Brasil já apareceu nas primeiras posições em levantamentos
internacionais de felicidade. Os céticos dirão que optamos por menos ambição e
desenvolvimento em troca de mais bem-estar, sociabilidade e alegria. Acho essa
uma falsa dicotomia. É possível ser simultaneamente desenvolvido e alegre. Na
última pesquisa Gallup sobre felicidade mundial, realizada de 2005 a 2011, os
dez primeiros colocados eram todos do Primeiro Mundo e os dez últimos,
subdesenvolvidos. Sou cético quanto à qualidade de uma escolha tomada em
situação de pobreza intelectual como a que temos no Brasil. Longe de mim sugerir
que analfabetos não devam poder decidir sobre a vida deles. Democracia e
liberdade são valores supremos. Mas seria demagógico supor que a qualidade das
decisões que uma pessoa toma não muda com melhorias radicais de instrução.
Pesquisas mostram que pessoas mais instruídas fumam menos e são mais saudáveis.
Finalmente, não creio que seja lógico ou ético optar pelo nosso atual patamar de
desenvolvimento, quando ele significa que tantos milhões de pessoas estariam
condenadas a uma vida indigna, da mais absoluta privação. Eu não teria problema
de viver em um Brasil que, a exemplo da França, optou por reduzir a semana
laboral, trocando riqueza por lazer e família - desde que o Brasil chegue ao
patamar da França, em que há riquezas acumuladas para bancar a “preguiça” e
validar a decisão de pegar leve. O Brasil ainda não chegou lá. Temos um caminho
longo. Convém mirar mais alto do que vimos fazendo.




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